24.3.09

o envelhecer

Eu nunca fui de chorar em shows.
Quando mais nova, os períodos pré-shows eram um terror. Eu não conseguia dormir, não conseguia pensar em outra coisa, tinha sonhos, tinha pesadelos.
Hoje em dia eu já fico bem mais calma nesse intervalo de tempo, mas o pós-show é um pesadelo! Fico triste, fico pensando em outras perspectivas pra minha vida, pros meus relacionamentos (namorado, família, amigos, trabalho). A coisa é realmente séria, eu fico sensível de tal forma que tudo parece errado. Não sei se é nesse período que eu enxergo as coisas como elas realmente são, ou se é só o meu eu-drama-queen-mór que ganha destaque.
Mas enfim, o fato é que a tensão durante os eventos é enorme. Sempre foi, mas eu nunca tinha parado pra pensar e entendido o porquê de eu nunca chorar em shows. a tensão pré-show era realmente enorme, e eu pensava comigo mesma "caralho, vou passar mal de chorar". E aí chegava o grande dia e eu tava lá, firme e forte e fanfarrona e falante.
No casamento de uma grande amiga minha, eu não conseguia fazer outra coisa que não fosse rir e falar! E nos shows a mesma coisa. Sempre.
Domingo agora foi o famigerado show do Radiohead. Eu nunca fui muito fã da banda não, sempre achei eles EVOLUÍDOS demais pra mim! haha. Mas teve uma fase do colégio onde eu gostava dessa coisa de música de fossa, de sofrer, de foder com os meus relacionamentos pra ficar em casa chorando e ouvindo o Pablo Honey/ The Bends/ Ok Computer. Fora o famigeradíssimo Parachute, do Coldplay, que é acima de todos o meu disco oficial de fossa. As grandes fossas da da minha vida foram ao som do Parachute. Mas enfim... Radiohead me faz lembrar de uma época gostosa da minha vida, onde tudo era mais intenso, as alegrias eram bem mais alegres, e tristezas eram profundas e as fossas intermináveis. Coisa de chorar pela mesma pessoa por seis meses. No mínimo. Mas eu como a boa Maria do Bairro que sou, sempre soube apreciar esses momentos. E por isso eu esperei tanto pelo show do Radiohead. Porque foram anos de anúncios, confirmações, esperas que nunca chegavam. Virou a maior lenda do rock alternativo, e todo mundo que gosta sabe bem disso. E aí quando eles confirmaram que viriam pra cá, quando eu comprei os ingressos há quase quatro meses atrás... ainda custava muito acreditar que eles íam realmente vir! Não seria nada estranho se eles cancelassem faltando um mês, uma semana, um dia... Sei lá, acho que a gente tava preparado pra tudo! Mas quando o dia do show chegou, primeiro bateu um desânimo, uma vontade de ficar em casa com o namorado dormindo embaixo do edredon com aquela chuva que caiu o dia inteiro em Guarulhos. Só não desisti porque né... foram cem pilas investidas nessa brincadeirinha de criança. E lá, com os Los Hermanos tocando depois de dois anos de hiato, com meus amigos, com o tempo favorecendo a noite que seria digna de uma das melhores noites da minha vida... eu só conseguia falar, rir e pular. Não dava pra esboçar nenhum sentimento além disso. Só que o pós-show foi um dos mais arrasadores ever. Uma nostalgia que não coube em mim, uma vontade de mudar um monte de coisas, um enxergar esquisito.
Hoje eu já to mais calma e já botei a cabeça no lugar. Ou fora do lugar. To satisfeita como eu to, mas com um pequeno vazio que só o Radiohead preencheu naquela fresca noite de vinte e dois de março de dois mil e nove. Uma noite única que vai ficar pra sempre na minha memória, guardadinha junto com as lágrimas que não vieram.

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